Tri-talento

Na segunda metade dos seis anos de Senna na McLaren, o piloto enfrenta diferentes desafios.

Senna na McLaren, parte II

Chegamos à fase que marca um divisor de águas na carreira de Senna em sua passagem pela equipe McLaren. Ele inicia o ano de 1991 como Bi-campeão, mas as duas temporadas anteriores haviam sido de muita controvérsia pela sua rivalidade com Alain Prost.

Certa ocasião, em uma coletiva, perguntou-se a Senna como ele aperfeiçoava o seu desempenho e controlava o ambiente a sua volta. Senna costumava parar e incorporar uma aura de misticismo para após uma pausa, dar suas respostas com ares filosóficos, muito já foi escrito e descrito desse comportamento do brasileiro e não é nele que quero me deter. Nesse dia ele deu o seguinte depoimento:

– Quando estou competindo contra o relógio e contra outros concorrentes, o sentimento de expectativa, de fazer o melhor me dá certo tipo de poder, de motivação que em alguns momentos quando estou dirigindo, na verdade desconecta-me de qualquer outra coisa que nem penso como estou fazendo isso… curva após curva, volta após volta. Digo e posso te dar verdadeiros exemplos que experimento essa sensação continuamente.

Era evidente que ele estava amadurecendo, como pessoa e como piloto. Pensando hoje nesse contexto de forma mais distante, coisas que o tempo nos proporciona, as temporadas que viriam a seguir trariam um Senna diferente dos três anos anteriores na McLaren.

Entre 1991 e 1993, algumas das corridas e vitórias que ele realiza podem fazer parte desses exemplos a que ele se refere no depoimento.

A temporada de 1991 é pega em seu início pelas quatro vitórias consecutivas do brasileiro. Começa nos EUA em Phoenix, e segue com triunfos no Brasil em Interlagos, San Marino em Imola e Monte Carlo em Mônaco.

A vitória em Interlagos particularmente já pode ser um dos exemplos a que Senna se refere, corrida que marcou o travamento do câmbio na sexta marcha, tendo o brasileiro percorrido as últimas sete voltas com esse problema e vendo Ricardo Patrese descontar com a Williams os quase trinta e seis segundos de desvantagem para chegar a três segundos na bandeirada. Uma vitória no Brasil, sua primeira em sua casa, foi um exercício de obstinação que ficou marcado pelas muitas cenas que se sucederam após a bandeirada: ares dramáticos, apontavam alguns, atos de heroísmo, falavam os torcedores.

httpv://youtu.be/w6x4R1FiI9M

Pelo que se via na tabela de pontos, o terceiro título parecia que viria bem fácil, até porque o adversário que se desenhava para ele e a McLaren era Nigel Mansell, que havia voltado para a Williams após cancelar uma aposentadoria precoce e tinha 34 pontos de desvantagem.

Senna, a despeito dessas vitórias, chamava a atenção da Honda para a pouca potência que na concepção dele o motor estava entregando. Ele chegou a falar: “Nós estamos colocando menos potência para aumentar a confiabilidade do motor, corro o risco de não ter como manter essa vantagem até o final”. Essa sinceridade foi nitidamente embaraçosa para a Honda.

Ele tinha razão. A Williams estava desenvolvendo bem o modelo FW14, que se revelaria no ano seguinte um carro de outro planeta. Para a sorte da McLaren, Nigel Mansell teve em 1991 mais quebras do que o esperado e Senna, pela vantagem adquirida no inicio do campeonato, conseguiu ir administrando e pontuando quando vencer não era possível.

Na sequência após Mônaco, as Williams dominam as provas. Senna vai acumulando pontos importantes para se manter líder do campeonato: Patrese vence no México e Mansell vence 3 GPs seguidos (França, Inglaterra e Alemanha).

Na décima prova do ano na Hungria, a vantagem de Senna sobre Mansell era de apenas 8 pontos (51 x 43), mas na travada pista de Hungaroring o brasileiro faz uma prova perfeita, largando na pole e segurando as Williams literalmente a corrida toda. Obtém uma importante vitória sobre a dupla da Williams.

Contando com a sorte, ele vê uma nova vitória cair em seu colo na corrida da Bélgica, no veloz circuito de Spa. Nessa prova, ele parte na pole, tendo liderado até a 15° volta quando na troca de pneus perde a liderança para Mansell. Só que o motor Renault do inglês falha e ele abandona, deixando Senna com uma folga de 22 pontos no campeonato.

Nas 3 corridas seguintes, novo domínio da Williams. Mas uma trapalhada em Portugal tirou a vitória de Mansell, que acabou desclassificado por uma troca irregular de pneus fora do local apropriado. A vitória ficou com Patrese, Senna continuou acumulando pontos importantes e chega a corrida no Japão com 16 pontos de vantagem, faltando apenas duas provas.

Na corrida, Senna deixa seu companheiro Berger sair na frente e fica na marcação a Mansell. Na 10° volta, o inglês perde o controle e sai da pista. Com o título decidido, o restante da corrida é pura diversão para Senna e ele termina a prova em segundo lugar (a mando de Ron Dennis) e chega ao seu terceiro título. Ainda teria tempo para conquistar a sétima vitória do ano no dilúvio que caiu na Austrália, uma corrida que teve apenas 14 minutos de duração.

A temporada de 1992 é muito difícil, a McLaren erra a mão no modelo MP4-7A e Senna tem o ano menos produtivo em termos de resultados. Nos seis anos em que correu pelo time de Woking, até sua grande especialidade, as poles, ficaram bem aquém. O principal ponto foi o motor, que a Honda produziu com menos potência que o time esperava.

A Williams, por seu lado, contava agora com suspensão ativa e controle de tração que transformaram um carro que já era bom em 1991 num bólido imbatível no ano seguinte. Senna fica praticamente fora da luta do título desde o inicio da temporada, que viu nas cinco primeiras provas Nigel Mansell vencendo de forma incontestável.

Mas o talento e sua capacidade mantiveram-se intactas, porque ele não baixou os braços e não deixou fugir as oportunidades que teve para vencer. Vieram vitórias em Mônaco, Hungria e Itália, sendo a primeira a mais lembrada, por aquelas últimas voltas de perder o fôlego, quando domou um Mansell que terminou em segundo, colado, após se recuperar de uma troca inesperada de pneus.

O término da temporada de 1992 marca também o término da relação da McLaren com a Honda. Ron Dennis buscou encontrar um novo fornecedor de motores que possibilitasse ao seu time níveis competitivos, afinal, a Williams continuaria com um carro bem superior e após não renovar contrato com Mansell, trazia Alain Prost para competir em 1993. Seria outro ano previsível em termos de quem seria o campeão.

O acordo acabou sendo fechado com a Ford, e não foi dos melhores. A equipe Benetton possuía cláusulas contratuais que davam a ela a primazia de receber a melhor versão, houve tentativas de bastidores para costurar um acordo, mas Flavio Briatore, da Benetton, não cedeu.

httpv://youtu.be/qPPHIfG3jAA

Assim, com o McLaren MP4/8 que contava com pouca potência, Senna inicia a temporada de 1993 de uma forma diferente até então vista. Primeiro, não assina com a McLaren para a temporada. Em vez disso, faz acordos corrida a corrida com Ron Dennis. Ciente da pouca competitividade de seu carro em relação à Williams, ele parte em busca de um patamar de pilotagem onde vai extrair todo o potencial que ele, piloto, e carro, podem oferecer.

A temporada seria uma surpresa para muitos que davam como certo que o ano seria um passeio de Prost e de sua Williams FW15C, uma evolução do modelo FW 14 – o carro de outro planeta. Falava-se até da possibilidade do francês vencer as dezesseis corridas do ano.

O que se viu nas seis primeiras provas do ano, entretanto, foi um início muito disputado. Prost vence três e Senna também vence outras três. No caso do brasileiro, em duas delas, seu talento sobrepujou as limitações do carro: no Brasil e na antológica corrida em Donington, onde Senna ultrapassa quatro carros na primeira volta e vence com categoria. Na sexta prova, em Mônaco, Senna volta a vencer, dessa vez favorecido por uma punição a Prost que havia queimado a largada.

A partir da sétima etapa, no Canadá, a Williams engata sete vitórias seguidas, quatro com Prost e três com Damon Hill. O campeonato tem seu dono, mas não da forma tão avassaladora como se previu.

Senna termina o ano com mais duas vitórias, Japão e Austrália. Em Adelaide, ao vencer, Senna conquista o vice-campeonato, tirando Damon Hill de uma posição para a qual era uma aposta certa. O pódio dessa corrida ficou marcado pela reaproximação e o abraço que Senna e Prost trocaram. As rivalidades de anos anteriores estariam cedendo lugar ao reconhecimento que ambos tinham da importância que um teve ao outro em suas carreiras, sem dúvida um momento onde a história estava sendo feita diante de nossos olhos.

Ano seguinte, Senna assumiria o lugar do francês na equipe Williams. Finalmente pilotaria para a equipe que lhe deu o primeiro teste na F1, dez ano antes, e que produzia os carros de outro planeta.

Jamais, no entanto, qualquer pessoa poderia imaginar uma nova jornada tão curta, e, ao mesmo tempo, tão trágica.

Mário Salustiano

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Leia também:
“Chegando lá”, Senna na Toleman – Lucas Giavoni
“The Lotus years”, Senna na Lotus – Cassio Yared
“A batalha do século”, Senna na McLaren (1ª parte) – Marcel Pilatti
“Obra inacabada”, Senna na Williams – Márcio Madeira

Especial Ayrton Senna

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Por ocasião dos 20 anos da morte de Ayrton Senna, os colunistas do GPTotal dedicam uma série de textos ao tricampeão.
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Comments

Comments

  1. Fernando Marques

    Reply
    abril 30, 2015

    Mario,

    Show de bola!!!

    Concordo com o Mauro que o pódio do GP da Austrália em 1993 encerrava uma era … mas não da forma como se encerrou … ninguém podeira imaginar um fim trágico para o Senna … o que é o destino …
    O que resta é a historia de uma carreira brilhante de mais um grande campeão da Formula 1 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Mauro Santana

    Reply
    abril 30, 2015

    Grande texto, Amigo Mário!

    Aquele pódio do GP da Austrália de 93, foi um momento inesquecível e emocionante, pois ali, naquele instante, a F1 encerrava uma era.

    Interessante também o início da transmissão do GP Brasil de 94, no qual Galvão Bueno fala que Ayrton Senna estava a bordo do melhor carro do planeta.

    Claro que ele(Galvão) e a Globo já sabiam que a Williams FW16 não era mais aquele bicho papão, mas, a maioria do público acreditava que era, pois naquela época o acesso as informações eram muito menores.

    É possível ver aos 55 segundos do vídeo abaixo.

    https://www.youtube.com/watch?v=1PrjJK4KQY4

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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