Vamos direto ao ponto: Não há muito que dizer sobre a conquista de Marc Márquez de mais um título na semana passada em Valência. Apenas ratificou que o espanhol não está aí para fazer figuração. O negócio dele é ganhar e buscar todos os recordes possíveis. Não resta a menor dúvida de que o menino de Cervera é o melhor piloto do momento, uma coisa que os fãs de Valentino Rossi vão ser obrigados a se acostumar.
Não que Valentino já não tenha feito isso. Quem acompanhava o Mundial de Motovelocidade entre 2001 e 2005 sabe do que estou falando. De Honda ou de Yamaha, Rossi venceu tudo, brilhou como nunca e, ao contrário do que se esperava, as corridas foram crescendo em interesse, porque o piloto e seu fã clube sempre davam um jeito de inovar com comemorações engraçadas, o que deixava o clima muito leve e divertido. Uma pena que a transmissão para o Brasil tenha sido tão limitada na época.
Aliás, é nisso que Márquez e a MotoGP vão ter que trabalhar para o futuro. A velocidade está lá, a fome de vitórias também, assim como a bela pilotagem, derivada das corridas de Dirty Track. O espanhol, no entanto deu um tiro no pé ao atrapalhar o campeonato de Rossi em 2015. A prova disso foram as poucas reações ao seu hexacampeonato no Brasil e em outros cantos do mundo. Houve congratulações? É claro, mas a resposta geral foi simplesmente indiferente.
A prova de que Márquez realmente cooperou para o título de Lorenzo em 2015 foi sua própria corrida em Valência em 2017. Pilotando uma Yamaha M1 com pneus macios, Johann Zarco tomou a liderança e manteve-se lá até restarem poucas voltas para o final, quando o espanhol deu o bote e assumiu a ponta – antes de quase colocar tudo a perder passando reto na curva 1, diga-se.
Para o observador atento, o comportamento da moto de Zarco foi exatamente igual à de Lorenzo em 2015. Naquela ocasião, ainda competindo pela Yamaha, o espanhol largou na ponta, mantendo-se firme até restarem dez voltas para o final, quando começou a perder ritmo (assim como Zarco) e Márquez colou em sua rabeta. O espanhol, no entanto, não esboçou qualquer menção de ultrapassagem, coisa que até o normalmente apático Dani Petrosa chegou a fazer.
Ao intrometer-se na briga entre os ferrenhos rivais Rossi e Lorenzo (e favorecendo o conterrâneo) para frear o 10º título do italiano, Márquez entrou em rota de colisão com sua enorme massa de fãs e mostrou que é um piloto capaz de tudo, até de atos questionáveis para conseguir seus recordes, o que nem sempre uma coisa muito legal. Vide a fama que Michael Schumacher e até Ayrton Senna ficaram após algumas polêmicas (que todo mundo sabe quais são) em suas carreiras.
Posto isso, voltemos a 2017, onde Lorenzo se meteu em mais uma polêmica. Agora de Ducati, correndo em quarto lugar, o espanhol precisava dar passagem a seu companheiro de equipe Andrea Dovizioso, que ainda brigava pelo título. O italiano tinha que vencer e torcer para que Márquez chegasse abaixo de 12º, o que por alguns minutos quase chegou a acontecer. Mas adivinhe se Lorenzo fez isso?
É bom frisar que tanto Lorenzo quanto Dovizioso caíram sozinhos, o que evidenciou que a Ducati realmente não era páreo para Márquez em Valência. Ordens de equipe são sempre questionáveis, é claro. Mas, pelo menos no meu ponto de vista, são plenamente justificáveis em uma corrida de decisão de título.
Lorenzo tinha condições de se manter à frente? É o que parecia. Dovizioso podia ter forçado mais? Sem dúvida. No frigir dos ovos, foi uma situação que não mudou nada, mas ao não dar passagem ao seu colega, o espanhol definitivamente não passou boa impressão com sua nova equipe, como denunciaram as caras de Gigi Dall’Igna e Davide Tardozzi. Também não ajudou a mudar sua já conhecida fama, o que não é algo que parece lhe incomodar.
A situação só não ficou mais delicada porque Dovizioso colocou panos quentes na situação. Logo após a corrida, o italiano fez questão de parabenizar Márquez e disse que ficou satisfeito com o bom ritmo de Lorenzo. Um verdadeiro gentleman, que também merecia o título pelo conjunto da obra: foi o cara que realmente acreditou da Ducati e permanece sendo o único à realmente compreendê-la, desde Casey Stoner.
Qual foi o truque de Dovizioso? Sua mente absolutamente serena e inabalável, que o fez observar os pontos fortes e fracos da Desmosedici em cada corrida. O italiano pode não ter aquela velocidade crua de Márquez, mas compensa isso com uma capacidade analítica invejável, de deixar Alain Prost e Eddie Lawson orgulhosos. Curiosamente, quem o instruiu a melhorar nesses quesitos foi justamente Stoner. O australiano agora é consultor da equipe e suas palavras são cuidadosamente levadas em consideração.
Polêmicas à parte, a Ducati encerra o ano em alta, o que não acontecia desde 2007. Mas e quanto à Yamaha? Depois de um começo de ano avassalador, a marca dos diapasões simplesmente desapareceu nas corridas finais, perdida com os misteriosos problemas da YZR-M1. Em sua versão 2017 a máquina japonesa se revelou muito mais nervosa e de difícil compreensão no acerto que a versão 2016, que ainda apresenta bom rendimento nas mãos de Zarco.
Mas o que, de fato aconteceu? Nem a Yamaha sabe ao certo. Nas palavras de Rossi, a versão 2016 era rápida, mas consumia muito pneu no terço final da prova, o que Zarco comprovou esse ano. Os técnicos japoneses tentaram corrigir esse problema, o que chegou a ser conseguido, mas apenas com os pneus certos, a temperatura do asfalto correta e a pista adequada. Uma janela muito estreita de utilização, portanto. O italiano já deu o papo aos engenheiros: jogar no lixo essa temporada e desenhar a nova moto do zero.
Aos que acompanharam atentamente à temporada, também ficou evidente um conflito nos boxes da Yamaha entre Rossi e Viñales. Não estou falando de uma troca de farpas como acontecia com Lorenzo, longe disso. Mas os dois pilotos divergem totalmente no estilo de pilotagem e preferências no acerto. No começo do ano, a M1 estava ótima para o espanhol e ruim para o italiano. A equipe, então tentou deixá-la melhor para o Doutor nas atualizações. Viñales, no entanto, nunca mais se achou. Ao final do ano, os dois estavam claramente confusos e abatidos.
Por mais que a Ducati tenha melhorado (e Lorenzo esteja cada vez mais à vontade na moto), a Yamaha permanece sendo como a principal rival e desafiante da Honda nos próximos anos. É a única marca com recursos técnicos e humanos em real abundância para enfrentar a líder, que além de dispor de uma mega estrutura fornecida pela HRC e Repsol, ainda conta com o melhor piloto do momento. Os próximos meses serão decisivos para definir os rumos da próxima temporada.
Até a próxima!













Manuel
22/11/2017Amigos, falar do carisma de Valentino é um pouco complicado. Sem dúvida que o cara sempre resultou muito popular mas creio que no seu caso foi muito mais fácil do qu no caso de Marqués chegar a ter essa popularidade. Quando Valentino entrou no campeonato máximo ( entao 500cc ) só havia um campeao : Alex Crivillé, vencedor em 1999. A grande estrela da época, Doohan, se retirou logo no inicio do campeonato, deixando a categoria orfa de ídolos. Crivillé teve um muito mal ano, enquanto que Rossi surpeendeu, terminando segundo, atrás de Roberts, quem conseguia seu primeiro e único título. Assim, Rossi logo veio a cobrir o espaço que faltava na categoria com sua qualidade e habitual simpatia.
Para Marquez as coisas foram muito diferentes. Teve de se enfrentar a Rossi, a grande estrela dos últimos anos e a Lorenzo, o vigente campeao, derrotando a ambos logo de cara. Para a multidude de seguidores de Rossi, isso resultou algo imperdoável !