No ano 69 do Nosso Senhor, Vespasiano é proclamado imperador de Roma que, após o suicídio de Nero, tinha entrado num periodo convulso, que havia levado a metrópole a um lamentável estado social e à beira da falência. Assim, seu primeiro objetivo foi restabelecer a ordem e sanear as finanças. Para tal fim, impôs mais …
Pecunia non olet! – parte I

No ano 69 do Nosso Senhor, Vespasiano é proclamado imperador de Roma que, após o suicídio de Nero, tinha entrado num periodo convulso, que havia levado a metrópole a um lamentável estado social e à beira da falência. Assim, seu primeiro objetivo foi restabelecer a ordem e sanear as finanças. Para tal fim, impôs mais austeridade, suprimindo o luxo e os fastos de anteriores imperadores e aumentando os impostos. Criou, inclusive, alguns novos, como o chamado “Vectigal Urinae”, que gravava a urina das latrinas públicas e que era muito apreciada pelos curtidores, pisoeiros e tintureiros da época. Portanto, estes, se queriam seguir dispondo de tão prezado produto, deviam pagar o imposto correspondente.
No entanto, Tito, um dos filhos de Vespasiano e quem lhe sucederia no trono, quando vê chegar a primeira remessa arrecadada com aquele tão escatológico imposto e com certo nojo, recrimina o pai pela cobrança. Vespasiano, tomando umas moedas na mão, as aproxima do nariz do filho perguntando-lhe se lhe molestava o cheiro. Tito move a cabeça em sinal de negação e Vespasiano lhe diz: “Pecunia non olest” – o dinheiro não cheira.
Com esta contundente afirmação, Vespasiano não deixava lugar a nenhuma dúvida a respeito do valor do dinheiro, independentemente de sua procedência e que, no fim, enquanto sirva ao propósito buscado, sempre é bem-vindo.
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Desnecessário dizer que a Fórmula 1 sempre foi uma atividade cara e só ao alcance de vultuosos bolsos. Colin Chapman costumava dizer que “a F1 custa tanto quanto você puder gastar!”.
Assim, a busca de fundos para financiar a atividade sempre foi uma constante na história da categoria. A paixão pelo automobilismo levou Enzo Ferrari a formar uma equipe de competição em 1929, dedicando-se a comprar e preparar com muito sucesso carros de corrida para clientes abastados. Tanto, que em 1933, a Alfa Romeo deixa em suas mãos seu departamento de competição. Em 1935, Ferrari já construía os carros de competição da Alfa em Modena. Após deixar a Alfa, e depois da Segunda Guerra Mundial, em 1947, Ferrari constrói o primeiro modelo que levaria seu nome, iniciando assim uma bem sucedida trajetória como fabricante de carros esportivos.
Mas a competição continuou sendo sua grande paixão e, quando se instaura o campeonato de Fórmula 1, em 1950, os carros do cavalinho participam em quatro dos sete GPs da temporada. Em 1951, chegaria a primeira vitória de um Ferrari e, em 1952, o primeiro campeonato, com Alberto Ascari, que repetiria o título na seguinte temporada. Em 1956, novo título com Fangio e, em 1958, com Hawthorn. Para então, a Ferrari já estava estabelecida como uma das grandes equipes da categoria, o que resultava numa boa forma de promover as vendas de seus carros esportivos. Essas vendas, por sua vez, eram uma boa forma de financiar a equipe.
Contudo, na década de 60, apesar de vencer os campeonatos de 1961 com Phil Hill e 1964 com John Surtees, Ferrari começa a enfrentar sérios problemas financeiros. Novas normas referentes à segurança e emissão de gases estavam sendo promulgadas na maioria de países europeus e nos Estados Unidos, o maior mercado de seus carros esportivos, e Ferrari não tinha suficientes recursos para afrontar os investimentos necessários.
Assim, o comendador trata de encontrar um grande fabricante com quem se associar. Esteve perto de chegar a um acordo com Ford em meados dos 60s, mas o negócio não prosperou, pois a empresa americana não estava disposta a deixar nas mãos de Ferrari o departamento de competição, tal como este pedia. Então, em 1969, aparece a Fiat e o acordo entre Gianni Agnelli e Enzo Ferrari é fechado sem problemas. A Fiat comprou 50% da Ferrari, assumindo o controle da divisão comercial da empresa, mantendo Enzo na direção da equipe de competição de forma vitalicia.
Além do mais, o compromisso entre os dois homens, contemplava uma importante contribuição anual, também vitalicia, para manter a equipe num alto nível de competitividade, pois Agnelli era da opinião que o sucesso da Ferrari dava muito boa publicidade e prestígio à industria automobilística italiana em geral.
Com apoio financeiro da Fiat, as vendas dos carros esportivos do cavalinho rampante não paravam de crescer enquanto Ferrari inicia o projeto de um novo carro para a F1: o 312. Apesar de uns inícios pouco prometedores, o carro terminaria dando muitas satisfações ao comendador, conquistando três títulos de pilotos e quatro de construtores de 1974 a 1979.
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Nessa mesma época, uma serie de movimentos empresariais terminariam com a constituição da Valsella-Meccanotecnica, empresa que se dedicaria à fabricação de minas antitanque e principalmente antipessoal, cujas vendas aumentariam de maneira espetacular nos anos seguintes. Sua mina mais vendida era a V69, de fragmentação.
Este tipo de minas, quando ativadas, são ejetadas para fora do terreno e, numa altura determinada, explodem lançando sua mortífera carga de fragmentos de aço a grandes distâncias. Assim, não apenas o infeliz que a ativa morre, mas também todos os que estejam ao seu redor num raio de dezenas de metros.
Aquele constante crescimento das vendas da Valsella não passaria despercebido para a Fiat que, em busca de aumentar seus benefícios, acaba assumindo o controle de 100% do capital da Valsella- Meccanotecnica em 1984. Nos seguintes anos, as vendas de minas continuavam a bom ritmo em diferentes zonas de conflito do mundo e seu principal cliente era o Iraque, com cerca de nove milhões de minas antipessoal compradas durante a guerra que manteve com o Irã. As minas também se usariam no sudeste asiatico, centro América e África do Sul, burlando
o embargo da venda de armas ao país, enviando carregamentos via Paraguai. Enzo Ferrari morreria em 1988 e, com isso, o compromisso da contribuição anual, mas a Fiat continuaria a injetar seus milhões na equipe de F1 para mantê-la no topo da categoria, pois isso promovia a venda dos carros esportivos da marca. Naqueles anos, a Valsella era praticamente a única empresa que aportava benefícios ao grupo, portanto parte daquele dinheiro acabava na Ferrari.
A Fiat passava então por uma difícil situação, mas a publicidade negativa que o acosso, tanto judiciário quanto popular a que estava submetida por tão abjeta atividade, fazem que a Fiat anuncie que se retirava da Valsella em 1994.
Porém, documentos encontrados posteriormente em 1996 e apresentados perante um tribunal da cidade de Brescia, mostravam que a Fiat, no fim de 1995, ainda mantinha 50% da empresa em seu poder. Com a promulgação de uma lei que proibia a fabricação e venda desse tipo de armas, a Valsella languideceria durante algum tempo até sua falência. No entanto, aquelas infames minas continuam mutilando e matando ainda hoje, sem discriminar se a vitima se trata de um soldado, um camponês ou uma criança.
Concluo essa historia no nosso próximo encontro.
Manuel Blanco





Comments
Luciano
Não seria “Pecunia non Olet”? Abs
Manuel
Assim é, Luciano. Muito obrigado !
Mauro Santana
Que top Manuel!
É aguardar a sequência.
Abraço!
Mauro Santana
Curitiba PR
Fernando Marques
TAM!! … TAM!! … TAM!!!
O que vem mais por aí!!!
Fernando Marques
Niterói RJ