O Ramo de Ouro

Hamilton terá um sucessor: quem será ele e quando se dará o encontro decisivo? A única coisa que se pode dizer é que, a cada dia, este encontro está mais próximo

A 100ª vitória de Lewis Hamilton, alcançada no eletrizante GP da Rússia da semana passada, marca o apogeu da sua carreira. Difícil imaginar que possa voar ainda mais alto, mesmo ganhando este ano seu oitavo mundial – é minha aposta – e ampliando seu rol de vitórias.

Imagino, porém, que Hamilton, inteligente como é, possa estar sentindo uma ponta de tristeza por saber que o melhor da sua carreira como piloto foi atingido. Max Verstappen já está em seus calcanhares e não será surpresa se conseguir tomar-lhe o título deste ano. E vêm aí George Russell, futuro companheiro na Mercedes, Lando Norris, Charles Leclerc e, talvez, Esteban Ocon, todos jovens desafiantes sedentos por roubar o Ramo de Ouro a Hamilton.

Ramo do quê?

De Ouro. Ele anda fora de moda ultimamente, inclusive porque não é lá muito politicamente correto. Deixei-me, para explicá-lo, transcrever um breve trecho da apresentação de O Ramo de Ouro, livro de James George Frazer, edição da Zahar de 1982:

Em Nemi, perto de Roma, havia um santuário onde, até os tempos imperiais, Diana, deusa dos bosques e dos animais e promotora da fecundidade, era cultuada com seu consorte masculino, Vírbio. A regra do templo era a de que qualquer homem podia ser o seu sacerdote e tomar o título de rei do bosque, desde que primeiro arrancasse um ramo – o ramo de ouro – de uma certa árvore sagrada do bosque em que ficava o templo e, em seguida, matasse o sacerdote. Era essa a modalidade regular de sucessão no sacerdócio. O objetivo do livro é responder a duas perguntas: por que o sacerdote tinha de matar o seu predecessor e por que devia, primeiro, colher o ramo?

Frazer, um antropólogo escocês nascido em 1854 e falecido em 1941, escreveu – acreditem! – treze volumes em busca das respostas. Analogias à lenda foram notadas por ele em todo o mundo e em toda a história. As respostas alcançadas remetem à magia, que ora assombra, ora abençoa nossas existências, e à forma como o homem do passado buscava controlar e regular o mundo. A morte do sacerdote, por exemplo, é considerada necessária para assegurar a fertilidade da natureza e também para expiar os males da humanidade.

Desnecessário dizer que li apenas um breve resumo da obra, mas creio que ela sirva bem para explicar o fascínio humano pelo esporte: primeiro, idolatramos a um Campeão; depois, aguardamos por aquele que vai destroná-lo torcendo, claro, para que as coisas terminem em termos amigáveis.

Isso, sabemos por experiência própria, nem sempre acontece. Em Imola 94, tínhamos um Campeão e um desafiante…

Aprendi a admirar Hamilton aos poucos.

Gostei da sem-cerimônia com a qual encarou Fernando Alonso em 2007 e, no ano seguinte, a maturidade que demonstrou, aproveitando cada oportunidade para somar pontos e derrotar a dupla da Ferrari. Eu estava em Interlagos 2008 e testemunhei aquela incrível corrida na qual Hamilton garantiu o título a menos de um quilômetro do final.

Nos anos seguintes, ele foi um piloto, digamos, normal, suportando calado a zebra Jenson Button e a impiedosa ditadura Vettel-RBR. Não se pode dizer que o movimento de Hamilton rumo à Mercedes em 2013 tenha sido um salto arriscado, mas exigiu desprendimento. O maior monopólio da história da F1 ainda estava no futuro. O novo regulamento de motores, em vigor a partir de 2014, poderia favorecer, como favoreceu, a Mercedes, mas também poderia ter beneficiado Renault ou Ferrari.

É tentador atribuir o sucesso de Hamilton à superioridade da Mercedes e à tibieza de seus companheiros de equipe. Isso é verdade, mas este mesmo nariz torto pode ser associado a supercampeões como Juan Manuel Fangio, Alberto Ascari, Jim Clark, Jackie Stewart (seus títulos de 69 e 71 foram vergonhosamente fáceis) e Michael Schumacher.

Entre gente deste quilate, não se pode dizer o mesmo de Nelson Piquet, Niki Lauda, Alain Prost e Ayrton Senna, ainda que alguns deles tenham tirado proveito de carros largamente superiores à oposição, tendo de derrotar apenas companheiros de equipe hostis.

A tentação de minimizar Hamilton ocorre também porque é mais difícil, agora, avaliar a contribuição de um piloto para o desenvolvimento do carro, que se dá predominantemente nos simuladores e supercomputadores. Mesmo com a multiplicação no número de GPs por temporada, Hamilton roda por ano num F1 (certamente menos de 20 mil km) o que Schumacher rodava em uns três meses nos seus tempos de Ferrari, quando chegava a dormir na pista de testes da equipe.

Este é, a meu ver, um dos grandes méritos de Hamilton: chegar na pista na 6-feira, entender-se com os engenheiros e transformar os resultados do simulador em vitórias em repetição – e sorte dele que a Mercedes tenha sido mais competente que as demais equipes em dominar o desenvolvimento dos carros em laboratório. Hoje, a interação entre piloto e engenheiros é essencial. Já reclamei aqui de ouvir o inglês perguntando pelo rádio “o que faço agora?”. Não é legal ouvir uma coisa dessas, mas são os tempos e Hamilton tira proveito das informações que recebe de uma forma que Sebastian Vettel, por exemplo, não consegue. 

E que ninguém o compare a um robô: Hamilton cresce na dificuldade. Muitas das suas vitórias, como na Rússia, foram obtidas em condições adversas, mutantes, perigosas, exigindo coragem, discernimento e técnica superiores, como Senna em Donington 93.

A expressão política e de comunicação também contam a favor de Hamilton. O mundo é, agora, das redes sociais e quem não entender isso (como eu, por exemplo), está condenado à irrelevância. Hamilton, com a sua sintonia com o público mais jovem, está ajudando a estender a validade da F1, ao mesmo tempo em que apoia ideias progressistas, algo nunca visto na categoria.

E mesmo com tudo isso, o Ramo de Ouro que lhe pertence de todo direito está em risco. Hamilton terá um sucessor: quem será ele e quando se dará o encontro decisivo?

A única coisa que se pode dizer é que, a cada dia, este encontro está mais próximo.

Boa semana a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa

Eduardo Correa

Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968
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Comments

Comments

  1. Carlos

    Reply
    outubro 5, 2021

    Vejo Hamilton de forma muito similar. Mas acho que Max vai obter seu primeiro título este ano.

  2. Fernando Marques

    Reply
    outubro 4, 2021

    Edu,

    sem precisar recorrer a números e cálculos de estatística, sua coluna retrata fielmente a era Hamilton na Formula 1.
    Aplausos!!!
    Sensacional!!!

    Obs: Uma coisa me chamou a atenção, não sei se tem a ver com o intuito da sua coluna, com relação ao tri campeão Jack Brabham. Isso por que Brabham abriu mão de poder se tornar um tetra campeão de Formula 1 em 1967, em favor de desenvolver o novo carro da sua equipe. Abriu mão da vaidade e possivelmente de suas ambições como piloto, o que certamente lhe renderia mais prestigio e dinheiro na época. D. Hulme, seu companheiro de equipe foi o campeão com o carro antigo. Será que Hamilton, caso alcance seu oitavo título na carreira, abriria mão de ganhar mais e ajudar a preparar o George Russel ser o futuro campeão da Formula 1 pela Mercedes? Isso em razão de ser sabedor que sua carreira na Formula 1 está chegando ao seu fim.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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