Tocando o caos

Pontos de contato entre a Fórmula 1 e Trump? Há sim, vários. Mas há também pontos de afastamento, o regulamento 2026, por exemplo

Acima e ao longo da coluna, imagens dos carros 2025

 

 

Estamos tocando o caos com as mãos nuas no momento. Já aconteceu antes, está acontecendo de novo, poetas – “Tudo desaba; o centro não sustenta…” – e filmes de Hollywood o previram.

O caos ganhou força nas últimas semanas com a posse de Donald Trump, o elefante shitting no picadeiro, na definição de Muniz Sodré. Muitos avisaram que ele e seus seguidores voltariam com intensidade redobrada para uma nova tentativa de tudo demolir, parecida à que se viu nas primeiras décadas do século XX (quando, a exemplo de hoje, havia uma percepção generalizada de que o fim do mundo estava próximo) e que culminou em Hiroshima e Nagasaki.

A avalanche de ideias caóticas só cresce. É uma das táticas que move Trump e aventureiros como ele, “flood the zone with shit”, nas palavras do ideólogo e vigarista Steve Bannon. Seguirá sendo assim enquanto – de novo o poeta – faltar convicção aos melhores, enquanto “os piores estão repletos de uma intensidade apaixonada”.

 

 

Esta avalanche não é estranha a nós, que acompanhamos a Fórmula 1.

O que eram aquelas propostas de Bernie Ecclestone e Max Mosley, de revezamento de pilotos entre equipes durante a temporada ou de molhar artificialmente a pista durante um GP? E nem vou falar de opiniões de Bernie, tantas vezes repetidas, sobre mulheres-pilotos e de admiração a Hitler.

Em algum momento, trocou-se o flood of shit pelo capitalismo desavergonhado, obsceno e corrupto, uma realidade há muitos anos na categoria, começando pela venda por um trocado pela Fia dos direitos comerciais da F1 para Bernie e deste para bancos internacionais, sempre em meio a casos comprovados de suborno. Depois veio o fundo CVC, que repassou a mercadoria em 2016 às mãos da Liberty Media, cujo sócio principal é John Mallone, um típico capitalista americano dos que apoia a demolição pretendida por Trump.

 

 

Fórmula 1 e Trump?

Sim. Há vários pontos de contato. O furor expansionista – está aí o número recorde de GPs e a promessa de que serão ainda mais nos próximos anos – e o desprezo à tradição, com a perda de relevância dos GPs europeus, trocados sem maiores pudores por países exóticos, mas capazes de pagar muito mais pelo direito de integrar o circo.

Há também na Fórmula 1 um movimento de bem visível de repressão a manifestações que não sejam do interesse dos organizadores. Vocês imaginam que Lewis Hamilton e colegas poderiam agora se ajoelhar na pista e erguer o punho, em apoio ao movimento Black Lives Matter, como fizeram no GP da Áustria de 2020? E a Mercedes enviaria hoje ao pódio, como o fez no GP da Estíria 2020, a zimbabuense Stephanie Travers para receber o prêmio em nome da equipe, em demonstração de apoio à maior inclusão na categoria?

Mas há pontos de distanciamento entre o que se vê nos Estados Unidos no momento e na Fórmula 1. Na categoria, há um regulamento muito rígido, técnico, comercial e esportivo, regulando-se até o tipo de palavra que um piloto pode usar no rádio do carro, em oposição a uma disposição manifesta pelo governo americano que chega a ser insana, de desregulamentar tudo.

Também não se renega na Fórmula 1 as teses mais básicas do livre comércio, e nem poderia ser diferente, enquanto nos Estados Unidos há hoje todo um movimento de restrição ao comércio internacional, alguns entendendo ser ele um dos elementos que vulneraria a hegemonia americana.

 

 

O que não se pode negar é que a visão de Mallone e de seus executivos sobre a Fórmula 1 atingiu seus propósitos, ao menos os capitalistas, e isso é tudo que importa a gente como eles.

Em entrevista à AutoSprint no começo do ano, Stefano Domenicali comemora os ganhos de capital da atividade como um todo e das equipes em particular. Malone pagou declarados US$ 4,4 bilhões pela Fórmula 1 em 2016; agora, a categoria vale US$ 23 bilhões.

A valorização beneficiou também as equipes. Vejam, por exemplo, o valor atingido pela Williams. O fundo Dorilton Capital comprou a equipe por declarados 150 milhões de euros em 2021; hoje ela vale cerca de 1,1 bilhão de euros, mesmo tendo conseguido menos de 2,5% dos pontos da McLaren na temporada 2024. E não faz muito tempo que a Honda vendeu sua equipe por uma libra (2009) e a Marussia-Manor simplesmente faliu (2017).

 

 

Como não torço para bancos, pergunto: e a qualidade das corridas?

Mas estamos mesmo preocupados com elas? Será que não superamos a “falta de emoção” dos tempos de Bernie e hoje preferimos a “experiência” de participar no autódromo ou pela TV de todo aquele… O que mesmo a Fórmula 1 proporciona hoje?

Noto o desapego muito maior atualmente pelos aspectos técnicos e históricos da categoria, sobrando interesse por aspectos fofos e superficiais, como a pintura dos carros e capacetes, por exemplo, as presenças “vips” nos boxes, séries e filmes.

 

 

Mas, voltando a Trump e ao caos: o regulamento 2026 – combustível “sustentável”, baterias mais potentes e carbono zero até 2030 – será revisto? Trump odeia carros elétricos e está ferrando com as montadoras americanas que investiram dezenas de bilhões de dólares na inovação. Perguntem à Ford o que acha do “vamos perfurar, baby”, como disse Trump, em declaração de amor ao petróleo, bandeira despregada de quem o apoia – e que é de Lula também, por falar nisso.

E aí? Como é que fica? Voltaremos aos tempos da gasolina deflagrada? Dos motores de doze cilindros?

Para saber a resposta, pergunte ao caos.

Bom final de semana

Edu

Eduardo Correa

Eduardo Correa

Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968
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Comments

Comments

  1. Eduardo Correa

    Reply
    fevereiro 25, 2025

    Ehr…

    Por falar em “pergunte ao caos”, acabo de saber que Bernie Ecclestone elogiou Trump.

    Edu

  2. Rafael Friedrich

    Reply
    fevereiro 21, 2025

    Concordo em número e grau com Fernando Marques. Bom final de semana a todos.

  3. Rubergil Jr

    Reply
    fevereiro 20, 2025

    Sempre é bom ler os textos do Edu, para pensar e refletir.
    A F1 há muito tempo é um paradoxo, já descrito aqui muitas vezes.
    É legal? Sim, claro, mas podia ser mais.
    Mas ainda sim gostamos pela parte esportiva, que como já disse Frank Williams, “acontece no domingo das 14:00 as 16:00 – o resto é business”.

    • Geraldo Flávio Chaves

      Reply
      fevereiro 22, 2025

      “Noto o desapego muito maior atualmente pelos aspectos técnicos e históricos da categoria ” aqui Edu, você disse tudo o que eu penso sobre a categoria! Atualmente, não tenho mais paciência pra acompanhar as corridas e tudo que envolve um gp! Mataram o esporte! Tudo gira em torno do dinheiro!
      Ficou um trem massa né e artificial de acompanhar!
      Ainda bem que tem o GPtotal e seus ótimos colunistas!

  4. Fernando Marques

    Reply
    fevereiro 20, 2025

    Eduardo Correa,

    vejo tudo isso que você disse na coluna como uma sequela incurável da evolução constante da tecnologia e do “chamado politicamente correto ( nem sempre correto por parte dos governantes e dirigentes) em detrimento do automobilismo raiz … que não precisava e nunca precisou desses regulamentos idiotas para trazer emoções às corridas ,,,
    Infelizmente enquanto houver esse retorno financeiro , a Formula 1 tende a ser assim como é hoje em dia e pelo que vemos no futuro também …
    e enquanto tiver ibope vai … e vai continuar indo … penso que nos dias atuais o saudosismo são pra poucos … e como sou um deles confesso a minha infeliciadade com a atual realidade da Formula 1 e por que não da politica/politicos tbm, onde a cada dia que passa , passo mais batido e votando nulo …
    Graça a Deus temos o GEPETO que não nos permite esquecer da história do automobilismo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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