Antes de me deitar, na noite de sábado, fiz o habitual planejamento em tópicos da coluna que pretendia escrever após a corrida em Abu Dhabi, a ser disputada no dia seguinte. Lá havia retrancas como “corrida”, “como essa temporada será lembrada”, a “caça de Hamilton aos números de Schumacher”, a “falta de confrontos diretos entre os melhores pilotos desta geração”, comparações entre 2017 e 1985 através dos desempenhos de Vettel/Alboreto ou Verstappen/Senna, e por fim, “despedida de Massa/fim de uma era”.
O plano era esse, mas ficou pelo caminho. Uma inesperada carga de emoção me fez ficar apenas com o último desses tópicos, e ao longo das quase duas horas no GP embarquei numa viagem pessoal que só ouso dividir aqui por ter certeza de estar entre pares, junto a pessoas que também tiveram a vida afetada em alguma medida por essa marcante história do Brasil na Fórmula 1.
Não sei dizer ao certo como a experiência começou. Mandei uma mensagem ao nosso grupo no WhatsApp destacando a importância do momento, e aparentemente o registro, meio que automático, fez minha própria ficha cair. De repente, notei a voz cansada de Galvão, repetindo seus eternos lugares comuns, meio ranzinza com as novidades tecnológicas e os espinhos da interatividade com quem está em casa, toda hora sendo interrompido para receber orientações ou correções através do ponto eletrônico… E senti empatia. Cresci ouvindo essa mesma voz, e lembro o quanto ele já foi bom. A câmera passeava encantada pela artificialidade estampada nos leds de Abu Dhabi, e me dava a exata dimensão do longo caminho que percorremos desde aquele asfalto remendado de Buenos Aires, dos mecânicos de shortinho, dos pilotos comendo quentinhas sobre pneus em boxes sujos, bigodes, cigarros, mulheres.
De repente, a imagem do sol se pondo na tela ganhou um tremendo significado metafórico para essa história que me enche de gratidão e de orgulho, não por nacionalismos bestas, mas porque estamos todos neste mesmo barco sofrido chamado Brasil. Sentimos na pele as mesmas amarras, as mesmas frustrações, os mesmos vilipêndios, os mesmos handicaps, a mesma carência de autoestima, que em última análise determinou o destino da preciosa equipe brasileira dos Fittipaldi. Senti orgulho ao passear por toda esta história porque nas pistas ousamos sonhar, porque não baixamos a cabeça e, apesar de tudo, vencemos e nos tornamos respeitáveis nessa arena tão exclusivista. Ensinamos um truque ou dois ao mundo, apresentamos autódromos e pilotos muito especiais e, diabos, não foi nada fácil.
A corrida, na televisão, estava uma droga. E eu aqui, sentindo lágrimas descendo pelo rosto.
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Nasci no dia 19 de julho de 1978, às 5h da manhã, horário de Brasília. Naquele mesmo dia, às 9h na Inglaterra – na mesma hora, portanto – o jovem Nelson Piquet fazia seu primeiro teste num Fórmula 1. Minhas primeiras lembranças estão profundamente relacionadas a uma Brabham branca, e meu pai tentando me explicar (sem muita didádica, hoje percebo) como era possível o último colocado estar à frente do primeiro. Aprendi minhas primeiras cores descobrindo que a vermelha era a Ferrari e a amarela era a Renault. As primeiras palavras que falei na vida tinham relação direta com carros e corridas. Aprendi o que eram lendas ouvindo relatos sobre Pelé, Garrincha, o antigo time de futebol de botões de meu pai e, claro, Emerson Fittipaldi.
Lembro da primeira vez em que ouvi o nome de Ayrton Senna e do impacto que sua combinação entre velocidade e obstinação rapidamente teve sobre mim, a ponto de sua vitória no Estoril ter me marcado muito mais do que a morte de Tancredo, ocorrida no mesmo dia. E de como foi preciso viver uma vida inteira para perceber que não era pachequismo de minha parte, mas identificação e admiração mesmo. Fico hipnotizado com o talento de Loeb e vibro com Valentino Rossi, por exemplo, tanto quanto me empolgava com a mágica de Ayrton naqueles marcantes anos 80.
E então eu cresci vendo Piquet na Williams, Senna na Lotus e, depois, enfrentando Prost na McLaren, e à tarde ainda podia me dar ao luxo de ligar na Bandeirantes e ver o lendário Emerson em ação. Os pilotos passavam férias no Rio sob pretexto de testar pneus, e todos aqueles carros – e outros anteriores – estavam sempre ao alcance da mão na minha sala, nos pegas de autorama que batia com meu pai. Antes de cada temporada havia os álbuns de figurinhas, e também os preciosos guias que traziam estatísticas que uma criança podia ter dificuldades para encontrar noutras fontes, e foi ali que comecei a decorar os recordes, a lista de campeões, e – nossa, é meio emocionante me dar conta disso agora – comecei a me tornar, e me sentir, bom em alguma coisa.
De repente, meus amigos e primos começaram a me consultar quando queriam falar sobre o tema – e quem não era nascido pode acreditar: falava-se muito sobre este tema. O tradicional almoço familiar na casa de meu avô era plataforma para relembrar a corrida do dia, e guardo lembranças especiais de Jerez 1986. Adorava ficar acordado de madrugada para as provas de Japão e Austrália, e consigo estabelecer uma cronologia precisa sobre os acontecimentos de minha vida tomando como base as corridas que estavam acontecendo.
Nesse sentido a temporada de 1991 foi um divisor de águas para mim. Eu tinha 12/13 anos, e já tinha percebido que vivia uma época especial e deveria gravar aquelas corridas em VHS. E então a Globo começou a transmitir os treinos, e minha cabeça explodiu de vez. A paixão pelas corridas foi multiplicada na medida em que minha compreensão a respeito do esporte se ampliou, e foi no auge desta fascinação, naquela altura já alimentada por jogos como Super Mônaco GP e F1GP, que me deparei com a morte de Senna. O impacto sobre mim, 15 anos à época, foi indescritível, mas o amor sempre foi pelas corridas, e sobreviveu.
Vieram os anos de Barrichello e Massa, tornei-me um colecionador de gravações de corridas e, aos poucos, pude ver Fittipaldi atuando na F1 antes de meu nascimento. Certa vez mandei um e-mail para O Globo que, ao ser publicado com destaque, me indicou a profissão que iria seguir. E cursei jornalismo, e descobri o GPtotal, e li o livro do Edu, e me formei. Alguns de meus melhores amigos devo a esta paixão por corridas, que conjugada ao jornalismo me deu oportunidade de conhecer tantos pilotos e tantas pistas. Lembro do dia em que o Barão Fittipaldi me pediu que transmitisse a Nelson Piquet um abraço seu. E eu fiz isso. Pessoalmente. Ou do dia em que, ao fim de uma entrevista, Roberto Moreno me pediu que escrevesse sua biografia. Quando imaginei que aquele cara que tanto me marcou ao tourear o Benetton nas ruas de Phoenix iria se tornar meu amigo, se hospedar em minha casa?
Olhando agora, tudo parece meio surreal. Essa história da F1 no Brasil não apenas atravessou minha vida, como a pautou, a guiou, me ajudou a descobrir meus talentos e a me dar autoconfiança. Rendeu-me amizades verdadeiras, irmãos, lembranças, histórias. Momentos que enchem a vida e são o único tesouro que realmente acumulamos.
Em 2018 não haverá piloto brasileiro no grid. Outros devem vir no futuro, mas o ciclo dourado de 47 anos se encerrou. Interlagos está ameaçada, o GP Brasil está ameaçado, e é claro que sinto em mim o chamado para defendê-los, bem como estimular o surgimento de novas pistas, certamente num processo de interiorização.
Mas hoje… Caramba. Hoje, a única coisa que eu consigo sentir é gratidão.




















Tiago
09/12/2017Olá Marcio, quando vai sair a biografia do Roberto Pupo Moreno?