O conceito de melhor vitória

O conceito de melhor vitória do jovem Jacky Ickx

Em 1967, o jovem Jacky Ickx estava com 22 anos e era pouco conhecido do público quando participou, a bordo de um Mirage-Ford (um GT40 modificado), de uma complicada prova de 1.000 km debaixo de muita chuva em Spa-Francorchamps.

Ele surpreendeu e venceu grandes competidores, como o pole Chaparral de Phil Hill, uma horda de Fords GT40, Porsches 910 e Lolas T70, além de uma Ferrari 330 P4 de fábrica, pilotada pela dupla Scarfiotti-Parkes, que tomou duas voltas!

Franco Lini, decano jornalista de automobilismo, que na época era diretor esportivo da Ferrari, fica muito impressionado com o que vê e indica Ickx para o comendador Enzo Ferrari. Lini estava convencido que Ickx seguramente se tornaria um grande piloto, pois reunia todas as condições para tal.

Naquela época, o velho Enzo estava querendo contratar Jackie Stewart, só que o salário solicitado pelo escocês era algo inimaginável para o comendador. Além disso, Stewart só queria assinar para correr na Fórmula 1, recusando-se a correr no campeonato de carros esporte que competiam pelo time de Maranello. Ickx, ao contrário, estava disposto a assinar qualquer termo para ter a chance de competir pela escuderia mais prestigiada do mundo.

Quando chegou à Ferrari, no começo de 1968, Ickx demonstrou uma postura mais madura que o esperado, o que agradou e facilitou a sua relação com a equipe, principalmente com Enzo Ferrari. Essa situação, porém, mudaria ao longo da temporada.

Ele vence o GP da França, a primeira vitória de um carro dotado de aerofólios, e consegue bons resultados ao longo do ano, mas o clima amistoso não durou o suficiente. Foram várias discussões e brigas com a equipe e, no final da temporada, ele se muda para a Brabham para desgosto de Enzo Ferrari. Em paralelo, no campeonato de Carros Esporte, ele assina com a JW-Gulf para correr em 1969 com o Ford GT-40.

O ano de 1969 acaba sendo grande para Ickx. Na Fórmula 1, ele vence duas provas (Alemanha e Canadá) e termina o ano como vice campeão de Stewart. Mas é em Le Mans que ele obtém uma vitória que, em suas próprias palavras, foi uma das melhores de sua carreira.

Após 24 horas, Ickx chega apenas 2 segundos à frente do segundo colocado. Detalhe: ele correu com o carro de chassi número “1075”, que foi o mesmo que venceu a prova no ano anterior.

httpv://www.youtube.com/watch?v=KG2NJLmthVw

Essa foi a última edição com largada típica da prova, onde os pilotos ficavam do lado oposto e corriam em direção aos carros ao sinal de largada. Ickx se recusou a correr e foi andando calmamente até seu carro, atou o cinto de segurança e só então saiu para a disputa.

Ironicamente, após a corrida Jacky Ickx teve um acidente no caminho para Paris, na segunda-feira de manhã. Um carro surgiu a sua frente e o jogou contra um poste, Ickx soltou o cinto de segurança e escapou ileso dos destroços do seu Porsche.

Com os resultados obtidos nessa temporada, Enzo Ferrari com a intervenção de Gianni Agnelli, na época presidente da FIAT, repensa suas desavenças e elas são superadas. Assim Ickx é recontratado pela Ferrari para correr em 1970.

Novamente ele faz um campeonato bem consistente e, com três vitórias termina, como vice-campeão. Mas em face do trágico acidente que vitimou Jochen Rindt, que terminou o ano como campeão póstumo, Ickx declarou que se sentiu aliviado por não ter conquistado o título.

Tudo indicava que um título era apenas uma questão de tempo, mas a sorte não sorriu mais para Ickx na Fórmula 1. A partir de 1971, ele obteve apenas mais duas vitórias na categoria, a Ferrari entrou numa fase bem negra entre os anos de 1971 até 1973, situação que só se reverteu a partir de 1974, quando eles resolveram concentrar seus esforços apenas na Fórmula 1, já sem contar com Jacky como piloto.

Em compensação, no mundial de Carros Esporte, Ickx e a Ferrari foram protagonistas no ano de 1972. O piloto venceu seis vezes e foi destacado o campeão junto com a escuderia.

httpv://www.youtube.com/watch?v=RC0Cy4BXo8k

Falar de Ickx no campeonato de Carros Esporte é um caso bem interessante. Foi, sem dúvida, onde ele mais se destacou e obteve inúmeras vitórias, sendo suas seis conquistas em Le Mans o seu marco mais destacado. Demorou décadas até que Tom Kristensen quebrasse seu recorde de vitória na emblemática pista francesa.

httpv://www.youtube.com/watch?v=p1KKaCN8RII

O conceito de Ickx sobre vitórias e méritos fica bem claro num depoimento que ele fez quando entrevistado sobre qual seria na, opinião dele, a sua melhor vitória. Ele apontou Le Mans 1969, mas suas palavras refletem bem o espírito de um piloto que, acima de correr, queria vencer com méritos:

Minha melhor vitória? Bom, antes de tudo, depende do que melhor vitória significa. Nos primeiros anos de sua carreira, um piloto está apenas interessado na vitória. É a única coisa que lhe interessa.

Mas depois, quando ele é capaz de diferenciar mérito de resultado, e quando ele percebe que os dois nem sempre andam juntos – longe disso – ele passa a preferir o primeiro ao segundo.

Isso é facilmente explicado, pois uma vitória que alguém mereceu, mas não venceu, é mais real do que a vitória vencida sem ser merecida. Então é lógico para um piloto ficar mais feliz e completamente realizado consigo mesmo em alguns dias que ele não venceu.

Para compreender isso, é preciso distinguir vitória do “pós-vitória”. A última começa a partir do momento em que o piloto cruza a linha de chegada. Mas como a mudança de vitória para “pós-vitória” é um pequeno passo, um piloto facilmente as identifica e as considera a mesma coisa, quando de fato são dois eventos totalmente diferentes.

É possível perceber isso assim que se acostuma à sensação de “pós-vitória”. Até pode perdurar dando satisfação, mas percebe-se, no entanto, que é apenas uma convenção que oficializa um triunfo anterior onde reside a verdade e realidade da vitória.

Em um momento posterior, percebe-se que o próprio sucesso é apenas uma única expressão de triunfo pessoal. Triunfo pessoal é requerimento básico para o sucesso, mas o oposto não é bom. É possível alcançar um grande triunfo pessoal que não é sancionado pelo sucesso. Não que isso de forma alguma diminua o triunfo ou o invalide.

Uma vez que ele tem visto, este confirmado, o piloto finalmente coloca vitória – o objetivo da sua vida – no contexto de seu triunfo pessoal contra o desafio de circunstâncias. Talvez só ele saberá como triunfo. Pela minha parte, duas das minhas melhores corridas foram o Grande Prêmio da Itália de 1969, onde eu passei completamente despercebido, e o Grande Prêmio de Mônaco de 1971, onde a imprensa registrou uma derrota. Em uma palavra, uma vez que se tinha experiência suficiente na concorrência, a noção de recompensa torna-se desprovida de sentido.

[…]

Ninguém deriva qualquer grande prazer da vitória perfeitamente ortodoxa devido a causas não diretamente dependentes da condução.

Minha primeira vitória em Grand Prix, em Rouen, em 1968, foi um exemplo disso. Quinze dias antes, tínhamos corrido em Zandvoort, onde a chuva tinha vindo como uma surpresa para todos, exceto eu, que não tinha passado a minha juventude na roça para nada e que tinha percebido isso.

httpv://www.youtube.com/watch?v=fBFFiMYJ1C8

Mas eu era muito novo na Ferrari para exigir a mudança de pneus, pouco antes do início, que eu considerava necessárias e eu me atirei no compromisso louco de correr em um aguaceiro com pneus que não tinham aderência nenhuma.

Consequentemente, quando exatamente a mesma situação surgiu em Rouen eu exigi pneus de chuva , enquanto todos os outros escolheram pneus secos ou médios. Mas mesmo antes de chegarmos à primeira curva a chuva começou a cair em enxurrada. Apesar de eu ser um novato assumi a liderança e ganhei com dois minutos de vantagem.

Eu deveria ter me dado por satisfeito, uma vez que a vitória estava perfeitamente em ordem. Devo minha liderança apenas para meu conhecimento do tempo e ouso dizer que eu tinha corrido bem, também. Ainda assim, este primeiro grande prêmio era de pouca importância para mim, embora eu saiba que era a primeira vez em sessenta e dois anos de corridas de grande prêmio que um belga conseguiu uma vitória.

[…]

Não considero que se obtém satisfação plena de uma vitória fácil, mostrando superioridade completa, uma quase vitória não é necessariamente mais satisfatória. Penso, por exemplo, nas seis horas em Brands Hatch em 1968.

Através de uma obra-prima de tática, David Yorke, que considero o número um como estrategista de corridas de carro, surpreendentemente conseguiu nos levar a ter que reabastecer duas vezes em vez de três. E quando o Porsche de Mitter e Scarfiotti parou pela terceira vez em torno da quinta hora, eu me encontrei com 45 segundos de vantagem.

Teoricamente, isso não era suficiente para segurar Scarfiotti durante uma hora inteira. E ainda assim eu consegui manter 22 segundos no final. Nem preciso dizer que era tudo ou nada. Eu tinha colocado o meu tudo para a última hora e foi praticamente no ponto limite. Eu tinha, por isso, merecido a vitória e, no entanto, de alguma forma, não foi uma grande emoção.

Por quê? Porque eu escapei do meu rival, não o dominei. Vencedor ou não, eu fui a caça, não o caçador. É ótimo escapar do caçador, mas não é a grande sensação. Nem é a grande sensação quando a vitória vem muito cedo numa corrida.

Eu me lembro de uma vez, por exemplo, numa 6 horas de Watkins Glen. Os primeiros três quartos de hora foram de batalha entre mim e Jo Siffert. Eu fui o vencedor. Mas uns 15 minutos depois, a Porsche desistiu e nada ameaçava a vitória que eu tinha. Ao fim da sexta hora, a disputa já era passado. Não contava mais.

Tendo feito estes esclarecimentos, eu agora definirei o que é uma ‘boa’ vitória. Para mim, o elemento número um é que deve haver um duelo. Obviamente, não é necessariamente assim. O que acontece frequentemente é ter vários oponentes, seja ao mesmo tempo ou um contra outro. Mas o prazer de emergir de uma briga não é tão emocionante quanto sair vitorioso de um duelo.

É claro que se fica contente de vencer e ter um oponente tranquilo é algo a mais. Mas muito se perde também. Por quê? Em primeiro lugar porque não há tempo suficiente de aproveitar o duelo. Participa-se dele sem realmente estar consciente disso. E porque o adversário não foi dominado.

No entanto, eu gostaria de mencionar como um contrário é a idéia de um duelo (que o piloto tem de enfrentar) para meus sentimentos naturais. Qualquer esporte que envolve um confronto entre dois oponentes sempre me coloca bastante à vontade, porque não há apenas um perdedor. E é disso que eu gosto sobre o esporte a motor, é o fato de que não há nenhum. Há um vencedor, obviamente, isso não faz que os demais competidores sejam perdedores. Isso que me permite ir para o duelo sem quaisquer escrúpulos de consciência. Mesmo se eu ganhar, a minha vitória não vai fazer um perdedor do meu adversário.

Para um vencedor ser plenamente satisfeito, deve haver um duelo e não deve haver nenhuma dúvida quanto ao fato de ele ter vencido. Seu adversário deve estar em pé de igualdade, e a condição da batalha deve permitir que o vencedor desse o seu melhor. Isso envolve a pista e carro, adversário e luta, sendo do mais alto nível todos os esforços dos competidores, todos no mais alto limite.

A forma como Ickx descreve o conceito de vencer reflete bem o espírito de competição de uma era diferente da atual. Vencer exigia, acima de tudo, o mérito e isso era o fator mais importante. Mas no fundo, guarda a semelhança com os dias de hoje, em que continua valendo que o piloto precisa vencer em primeiro lugar a si mesmo.

Abraços e um bom fim de semana
Mário

Mário Salustiano

Mário Salustiano

Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.
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Comments

Comments

  1. Robinson Araujo

    Reply
    janeiro 31, 2016

    Colegas do GPto

    Imagino que o maior ato que Ickx realizou para os brasileiros no automobilismo foi a interrupção do chuvoso GP de Mônaco em 1984, criando com este ato polêmicas, discussões e colocou Ayrton Senna na categoria de piloto excepcional ainda no primeiro ano de carreira.
    Em relação a carreira do belga na F1 após 1972, imagino que, assim como outros pilotos, não conseguiu fechar bons contratos com equipes competitivas, sendo que Emerson (pré Copersucar) e Stewart tinham um grande faro para isso (ou sorte), assim como Senna e Prost.
    Em 1973 a Ferrari chegou ao fundo do posso com o primeiro 312B3, indo o piloto buscar abrigo na Mclaren e até com o garagista Williams em época de vacas MUITO magras. As lotus de 74 e 75 nada mais eram do que a de 72 envelhecidas e cansadas, ultrapassadas mesmo, porém sem encontrar solução melhor.
    A partir dai foi perambulando em carros nanicos da Williams novamente, após Wolf, que encerrara a parceria mal sucedida com tio Frank, Ensign, até concluir sua carreira no bom Ligier JS11 de 1979, porém em um momento que a equipe já tinha perdido o potencial avassalador do carro.
    Talvez o mais importante tenha sido participar da década de ouro da F1 e podido compartilhar momentos incríveis com aqueles caras!

    Uma boa semana a todos.

  2. Mauro Santana

    Reply
    janeiro 30, 2016

    Grande Salu!!!

    Parabéns, belíssima coluna!

    Pois é, Ickx foi um dos monstros sagrados do automobilismo mundial, mesmo não tendo sido campeão na F1, fez história no Mundial de Marcas e também no Paris-Dakar.

    O cara é uma Lenda Viva!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques

    Reply
    janeiro 29, 2016

    Grande Mario,

    de volta já arrebentando …show de bola!!!

    quando eu comecei a conhecer o circo da Formula 1, lá pelo ano de 1970/71. o Jacky Ickx já era o Rei da Chuva da época. Nas corridas com chuva ele sempre era o maior favorito. Mas nunca o tive, dentro de meus conceitos, como um possível campeão mundial da categoria. Talvez por que, em pista seca tivesse outros grandes nomes que foram a meu ver melhores do que ele como foi o caso do J. Stuwart, G. Hill, R. Peterson, D. Hulme, E. Fittipaldi, J. Rindt como maiores exemplos. Mas ele foi e é um grande nome da história do automobilismo mundial e Le Mans é palco e prova disso.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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