Bom amigos, eu preciso fazer uma confissão: gostei do GP da Austrália. E não foi pouco não.
Desde o início, quando ficou claro que a Ferrari de Vettel tinha ritmo para acompanhar a Mercedes de Hamilton, não fui capaz de tirar os olhos da tela nem por um instante. Admito que essa era uma imagem pela qual eu vinha esperando desde 2008, quando ficou claro que o jovem alemão da Toro Rosso era um fenômero da estatura do próprio Hamilton ou de Fernando Alonso.
Já disse mais de uma vez que se ainda tem algo que falta a esta geração tão pródiga em pilotos de altíssimo nível são mais confrontos diretos. Vettel e Hamilton venceram seis campeonatos seguidos entre 2010 e 2015 e, ainda assim, raras foram as vezes em que os vimos em disputa direta, ao volante de equipamentos próximos em competitividade. Alonso então, nem se fala. Certamente teria sido interessante ver disputas em igualdade de condições dentro da mesma equipe, a exemplo do que aconteceu quando Fernando e Lewis dividiram a McLaren dez anos atrás, mas se essa batalha puder agregar os interesses e esforços de times diferentes – ainda mais com o peso histórico de Ferrari e Mercedes –, tanto melhor.
Claro que é cedo para admitir que o cenário de proximidade visto em Melbourne irá se manter ao longo do ano, especialmente quando apenas começamos a tatear as possibilidades de um novo regulamento. Da mesma forma, não posso deixar de manifestar meu desprezo pelo fato de parte significativa desta igualdade ser tributária de uma canetada que baniu um aparato – a chamada suspensão inteligente – que a Mercedes havia desenvolvido melhor do que a concorrência. Mas, ainda assim, me parece animador que a temporada tenha começado com seus dois principais conjuntos andando em condições muito mais próximas.
Não tenho dúvidas de que, passado o destempero de quem cai após atingir o topo, Vettel é hoje um piloto com enorme fome de título. Para quem cresceu idolatrando Schumacher, ser campeão pela Ferrari certamente teria um significado completamente diferente. Sem mencionar que seria a afirmação definitiva para alguém que foi superado por Ricciardo em seu último ano de Red Bull, e se tornou um piloto excessivamente reclamão em seus primeiros anos de Ferrari.
Hamilton, por sua vez, viu seu companheiro de equipe ser campeão no ano passado, para em seguida pendurar a sapatilha, sem dar chance de troco. É óbvio que ele está engasgado, e ávido por se impor diante de Bottas, tirando bom proveito da oportunidade de estar ao volante de um carro potencialmente campeão.
Ainda entre os conjuntos, acredito que Räikkönen e Bottas devem agregar um bom tempero ao ano, tanto pelo talento quanto pelas personalidades e a rivalidade mútua. Dos finlandeses espero algumas vitórias, e possivelmente algumas batidas também. E é preciso falar ainda da Red Bull, que tem dois pilotos exuberantes e certamente irá crescer ao longo da temporada, beneficiada pelo talento de Adrian Newey e pela liberdade para o desenvolvimento dos motores também.
![]()
Também gostei dos carros. Ou, sendo mais específico, da velocidade deles.
Já disse diversas vezes que Fórmula 1 precisa intimidar, Fórmula 1 é frenagem, é velocidade em curvas, é agilidade. É levar o corpo humano ao limite, é coragem, é quebrar os cronômetros.
Gostaria de ver carros mais leves e sem sistema de recuperação de energia, mas definitivamente gosto mais da rapidez atual do que dos dragsters do ano passado.
![]()
As características que listei nos carros atuais, contudo, não combinam com a abundância de ultrapassagens.
É inevitável. As freadas se tornam mais curtas, as pequenas retas passam mais rápido, a dependência aerodinâmica é grande. A menos que voltemos aos tempos do carro-asa, mais velocidade em curva significa maior dificuldade para ultrapassar. E isso, para a imensa maioria das pessoas é sinônimo de “menos emoção”.
Essa, contudo, é uma relação que preciso questionar. No que me cabe, entendo que o maior valor de uma ultrapassagem resida justamente na possibilidade de defesa de quem vai à frente. Por isso, seguindo a mesma lógica, vejo mais emoção e mais valor numa disputa decidida na vontade, na estratégia e no destemor – ainda que a caça eventualmente prevaleça ao caçador – do que em dezenas de disputas decididas ou facilitadas pelo apertar de um botão.
Até aqui tenho certeza de que muitos concordam comigo, mas é preciso aprofundar a reflexão. É importante observar, por exemplo, que quando ultrapassagens são inevitáveis, apenas o conjunto mais forte poderá vencer dentro de condições normais, uma vez que terá sempre os meios de impor sua vantagem. Não deve surpreender, portanto, a enorme concentração de vitórias em torno da Mercedes nos últimos três anos.
O grande problema das ultrapassagens fáceis é que elas eliminam da receita dos GPs um ingrediente essencial, mas ainda assim pouco lembrado ou valorizado, que em minhas análises defino como “posicionamento”. Já escrevi isso aqui, mas não custa repetir: da forma como eu vejo, o tempo de um piloto ao fim de uma corrida será resultado do ritmo que foi capaz de imprimir, acrescido do tempo que perdeu atrás de conjuntos mais lentos, por problemas de posicionamento. Dominar a arte do posicionamento, portanto, significa aproximar seu ritmo em corrida daquilo que poderia ser feito caso estivesse correndo sozinho.
Na prática, estamos falando aqui sobre tópicos como posição de largada, progressão durante as duas ou três primeiras voltas (quando o pelotão está compacto e atravessa o primeiro e o segundo estágios da pilotagem), negociação com retardatários, escolha do momento para a realização de pit stops e, claro, a concretização de ultrapassagens em disputas diretas sempre que, por alguma razão, o piloto tiver à sua frente algum conjunto mais lento.
Algumas das maiores vitórias que vi na vida foram conquistadas por pilotos descendentes que não formavam o conjunto mais veloz, mas foram capazes de defender a liderança alcançada a partir do domínio do posicionamento. Foi o caso de Gilles Villeneuve na Espanha em 1981 ou Ayrton Senna na Hungria uma década mais tarde, por exemplo.
Da mesma forma, testemunhei triunfos memoráveis conquistados a partir de ultrapassagens concretizadas na marra, quando o conjunto mais forte havia sido superado por questões de posicionamento e precisava recuperar a posição diante de um piloto em condições de se defender. O caso mais emblemático, claro, aconteceu na Hungria em 1986, mas houve muitos outros.
Vettel e a Ferrari bateram as Mercedes em Melbourne fazendo uso do posicionamento, e eu espero que mais corridas sejam decididas desta forma no futuro próximo. Sem artificialismos, de maneira legítima, com cada conjunto buscando individualmente as melhores maneiras de cumprir a distância obrigatória no menor tempo possível. Isso, opinião minha, não é procissão, mas a própria definição de corrida. E, se no caminho houver um punhado de manobras memoráveis, então tanto melhor.
Também pesa o fato de que não consigo imaginar gente como James Hunt, Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve, Keke Rosberg ou Nigel Mansell reclamando que está difícil ultrapassar. Noutros tempos isso pegaria até mal, jogaria contra a tão necessária construção da aura, do respeito entre os pares, que fazia muita gente tremer quando via um 5 vermelho crescendo nos retrovisores.
Olhando, enfim, para o recente GP da Austrália, fico com a impressão de que todos nós, assim como os próprios pilotos, ficamos mal acostumados por facilidades excessivas ao longo dos últimos anos.
Uma ótima semana a todos.
















Alair Walter Vieira Barbosa
04/04/2017Concordo em parte. Não vimos a ultrapassagem de Vettel sobre Hamilton. Tenho muito receio que as medidas tomadas pelo corpo técnico da F1 nos leve a ter aquele período infame, onde havia uma verdadeira procissão e as ultrapassagens eram feitas nas paradas de boxes.